Por que escolhemos o nome Ecclesia?

Neste texto, conto como minha história com os jogos e minha caminhada espiritual se encontraram para dar origem à marca.

Vinicius Apolinario

9/11/20254 min read

Cresci no fim dos anos 80, numa época em que os videogames estavam se espalhando pelo mundo e mudando para sempre a forma como as crianças se divertiam. Minha infância foi acompanhada de consoles, fitas e controles de videogame, mas também de cartas coloridas e cheias de criaturas fantásticas. Quem viveu aquele período vai se lembrar do impacto de jogos como Pokémon TCG, Yu-Gi-Oh! e Magic: The Gathering, que viraram febre nos anos 90 e 2000.

Mas havia um detalhe importante no meu contexto: eu cresci em um lar cristão adventista, e dentro da comunidade, esse tipo de material era frequentemente visto com desconfiança ou até repulsa. Para muitos, os jogos de cartas ou os videogames eram considerados perda de tempo ou, em alguns casos, até contrários à fé. Então, apesar de eu sempre gostar de jogos, essa tensão entre diversão e espiritualidade esteve presente desde cedo na minha vida.

O encontro com os boardgames modernos

Com o tempo, fui crescendo e, já na vida adulta, acabei descobrindo o universo dos jogos de tabuleiro modernos. E foi como abrir uma porta para um mundo novo. Jogos como Catan, com sua dinâmica de trocas e construção de aldeias, ou Ticket to Ride, onde a estratégia é montar rotas ferroviárias pelo mapa, mostraram que os jogos podiam ser muito mais do que rolar dados e avançar casas em um tabuleiro.

Depois vieram títulos como Terraforming Mars, em que a sensação é literalmente participar de um projeto épico de transformação de um planeta inteiro. Essas mecânicas inovadoras provaram que um bom jogo é aquele que mistura desafio, estratégia e diversão, sem precisar de artifícios vazios.

Foi nesse momento que surgiu uma pergunta inevitável: “Por que não temos jogos cristãos com essa mesma qualidade e profundidade?”

O problema dos jogos cristãos existentes

Ao procurar alternativas, percebi uma realidade frustrante: os jogos de tabuleiro cristãos disponíveis geralmente tinham um caráter quase exclusivamente didático. Muitos eram verdadeiras aulas de teologia disfarçadas de jogos, e acabavam deixando de lado o aspecto mais importante: a diversão.

Era como se a mensagem fosse “vamos ensinar, e se der tempo a gente brinca um pouco também”. Mas quem conhece o mundo dos boardgames modernos sabe que a força de um jogo está justamente em envolver as pessoas, gerar risadas, tensão e boas memórias em volta da mesa. É nesse espaço lúdico que valores, histórias e ideias podem ser transmitidos naturalmente.

E foi aí que nasceu a ideia de criar algo diferente.

O nascimento da Ecclesia

No início, Ecclesia era apenas o nome do meu primeiro jogo de tabuleiro, uma ideia embrionária de levar a temática cristã para dentro de uma experiência realmente divertida. Mas, conforme novos projetos foram surgindo — como o Eden – Tutores da Criação — percebi que não bastava ter apenas um título isolado. O que estava nascendo era, na verdade, uma marca, um espaço criativo para desenvolver diferentes jogos que dialogassem com a fé cristã sem perder o foco na diversão.

E eu havia gostado tanto do nome Ecclesia que não tive dúvidas: ele deveria acompanhar todo o projeto.

O significado de Ecclesia

Mas por que esse nome?

Ecclesia é uma palavra em latim que significa Igreja. Mais do que um prédio ou uma instituição, a palavra carrega a ideia de comunidade de fé, de pessoas reunidas com um propósito em comum. E, para mim, nada representa melhor a experiência de jogar um bom jogo de tabuleiro do que essa imagem: pessoas reunidas, em volta da mesa, compartilhando tempo, risadas, aprendizados e memórias.

Além disso, o latim tem uma ligação profunda com a história do cristianismo. Foi uma das línguas que ajudou a espalhar a fé pelo mundo e deixou marcas na cultura ocidental. Escolher esse nome é, de certa forma, uma homenagem a essa herança.

O detalhe do logo

A escolha do nome também se refletiu no logo da marca. Ele é construído a partir da união das letras E e C, que, no “negativo” da imagem, criam uma forma semelhante à letra ômega (Ω).

Essa não é uma coincidência qualquer. O ômega é uma letra do alfabeto grego e carrega um peso simbólico enorme para nós cristãos. A Bíblia apresenta Deus como o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. Ao incluir esse detalhe no logo, quisemos reforçar que todos os jogos e projetos da Ecclesia estão ancorados nessa perspectiva: a de um Deus que está no começo e no final de todas as coisas.

Uma visão adventista

Outro ponto importante para mim, como adventista do sétimo dia, é que os jogos da Ecclesia também nascem com o desejo de oferecer alternativas de entretenimento para momentos de comunhão, como o sábado.

Quem guarda o sábado sabe que esse é um dia especial, separado para descanso, reflexão espiritual e convivência com a família e a comunidade. No entanto, muitas vezes faltam recursos que sejam edificantes e, ao mesmo tempo, leves para esse tempo.

Foi aí que percebi: criar jogos com temas bíblicos, mas que fossem realmente divertidos, poderia preencher uma lacuna enorme. Eles poderiam ser usados tanto em reuniões familiares quanto em grupos de jovens, escolas sabatinas ou encontros de igreja, sempre mantendo o espírito de comunhão e aprendizado, mas de uma forma natural e envolvente.

O propósito da Ecclesia

No fim das contas, escolher o nome Ecclesia foi mais do que uma decisão estética ou de marketing. Foi uma forma de resumir a visão por trás de tudo o que queremos construir: jogos de tabuleiro cristãos que não sejam apenas lições disfarçadas, mas experiências memoráveis, capazes de unir pessoas e transmitir valores de maneira lúdica.

Porque, no fundo, é isso que um bom jogo faz: junta pessoas em torno de uma mesa, cria histórias e desperta emoções. E se essa experiência pode também refletir a fé que nos move, então conseguimos unir o melhor dos dois mundos.

Esse é o porquê escolhemos o nome Ecclesia.

É mais do que um título. É a tradução do que queremos viver e compartilhar: uma comunidade reunida em volta da mesa, celebrando a fé e a alegria de jogar juntos.